Trânsito tem que ser prioridade na CIDADE

ESPECIALISTA luiz afonso senna ANALISA A SITUAÇÃO DE SANTA CRUZ E RECOMENDA: FISCALIZAÇÃO É A SAÍDA
Saúde, educação e trânsito. Cada vez mais a movimentação de veículos nas grandes cidades passa a ser prioridade das administrações públicas. À medida que a frota cresce, aumenta a responsabilidade na busca por soluções para facilitar o fluxo e reduzir acidentes. Em Santa Cruz do Sul não é diferente.
O município tem um índice de densidade veicular semelhante ao de muitas metrópoles. São 60 mil para uma população de 120 mil habitantes. Ou seja, um carro ou moto para cada duas pessoas. Por outro lado, demonstra fragilidade no controle, com um agente de fiscalização para cada 20 mil veículos. Nesse ritmo, a tranqueira e o desrespeito às normas são naturais. Entra aí a corrida por medidas para amenizar o problema, que envolve desde o cidadão comum até o alto escalão do Executivo municipal.
Entre os dias 24 de março e 4 de abril a Gazeta do Sul publicou a série Trânsito - Você também tem a ver com isso, mostrando os dez maiores problemas que ocorrem em Santa Cruz e suas implicações, além das soluções que estão sendo pensadas.
As reportagens foram analisadas por um dos maiores especialistas em trânsito do País: Luiz Afonso Senna, secretário municipal de Mobilidade Urbana de Porto Alegre, diretor da Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC). Sob sua gerência fica a tarefa de fiscalizar e pensar em sistemas que tornem mais eficiente a circulação de uma frota de aproximadamente 600 mil veículos.
Em números, Santa Cruz está distante da Capital gaúcha. Mas Senna garante: no trânsito, os problemas são os mesmos. “Está ocorrendo no Brasil o que já aconteceu em muitas partes do mundo. O nosso País não é o primeiro a ter muitos carros. Pelo contrário. Dos grandes, é o último a conviver com essa realidade”, afirma. Mas o trânsito não vai fazer as cidades pararem. “Se nós somos o último país a ter muitos carros e nenhum outro parou, por que nós seríamos diferentes?”
MULTAS, SIM
Na verdade, o cenário é de readequação e de busca por medidas para contornar essa realidade. “As pessoas começaram a mudar os seus hábitos”, define. Uma nova cultura de trânsito começa a florescer, semeada entre as novas gerações sob a forma de educação dirigida. Para Senna, os atuais motoristas não são um caso perdido, mas necessitam de um outro tipo de estímulo: a dor no bolso.
Quem não cumpre o Código de Trânsito Brasileiro precisa ser multado e ponto. Multas pesadas, que inibam o infrator de repetir o erro. Uma forma incisiva de conscientização, na marra. “A fiscalização hoje é a educação do adulto mal-educado. O grande investimento é nas gerações mais novas, mas não há tempo para esperar”. Confira nos tópicos a seguir os principais trechos da entrevista que Luiz Afonso Senna concedeu à Gazeta do Sul, na sede da EPTC, em Porto Alegre.

FISCALIZAÇÃO
“O trânsito tem um tripé: educação, fiscalização e engenharia. Dentro da engenharia o município tem que prover a sinalização adequada, o pavimento adequado, os semáforos, as faixas de segurança. Em segundo vem a educação, com trabalhos permanentes, uso da mídia, atuação nas escolas, treinamento das crianças. E por fim tem a fiscalização, que precisa ser muito rígida. Quando assumimos aqui o pessoal falava muito na indústria da multa. Aí as pessoas sempre perguntavam: a EPTC multa? É óbvio que multa, é a função dela. O que não pode é multar inocente, quem está cumprindo o código. Mas se não cumpriu, tem que multar sim. E multar muito.
Nossas autuações são menos de 1% das infrações cometidas. Não é nada. A indústria da infração é muito maior. Nós da multa somos incompetentes. Por outro lado, somos muito rigorosos. Se o sujeito parou na via, tem que ir lá e multar. Ponto. Então tem que haver uma fiscalização eficiente. Dizem que na Europa os motoristas são educados. São, porque lá custa muito caro ser mal-educado. Uma multa por estacionar em local proibido tem um valor absurdo. Aí os caras ainda colocam um grampo na roda do carro e, pra sair, tem que pagar na hora. Funciona.
Claro que sempre que se fala em fiscalização a população é muito relutante. Aqui em Porto Alegre o agente de fiscalização é odiado. Ou porque ele está presente, e aí o pessoal associa que está multando alguém que não deve, ou é criticado por não estar lá. Mas isso de certa forma é uma síntese do que acontece na sociedade brasileira. A gente acha que quem deve cumprir a lei são os outros. Existe uma flexibilidade no entendimento do que é cumprir a lei. Então temos que levar muito ao pé da letra. A curto prazo, a fiscalização é a solução imediata. Ela é hoje a educação do adulto mal-educado, e o grande esforço realmente é nas gerações mais novas. Mas não podemos esperar.”
SÃO PAULO
“Hoje estamos muito influenciados pela realidade de São Paulo. Só que São Paulo tem mais veículos do que gaúchos no Rio Grande do Sul. A cidade de São Paulo tem 6 milhões de veículos. É uma outra escala, uma outra dimensão. Nós temos muitos veículos hoje circulando nas nossas cidades. E nos horários de pico acaba se tendo alguns níveis de congestionamento. Em Santa Cruz, como em Porto Alegre, esses congestionamentos são observados nas primeiras horas e no final do dia. Afora isso, as vias geralmente estão absolutamente vazias ou com um trânsito normal.”
CULTURA DE CIDADE PEQUENA
“A cultura de cidade pequena é o grande paradoxo, e não é exclusividade de Santa Cruz. Porto Alegre também tem isso, quando tem ao mesmo tempo a característica de metrópole e cidadezinha interiorana. Quando começa a ter uma realidade de muitos carros, com índices que se igualam às maiores cidades do mundo, aí que entra o paradoxo. Uma frota de primeiro mundo, mas com alguma mentalidade ainda de cidade pequena, com o cara querendo parar o carro dentro, na frente da área de interesse dele. Daqui pra frente nós vamos ser cada vez mais metrópole e menos cidade interiorana. É um hábito que nós vamos ter que começar a alterar.
Em Porto Alegre, como em Santa Cruz também acontece, os pais vão buscar os filhos nos colégios e param em fila dupla, fila tripla. Isso é um péssimo exemplo que a gente dá pros filhos. São pessoas com indicadores de primeiro mundo tendo comportamento de quarto mundo. Desrespeito absoluto à lei, nenhum compromisso com a causa da comunidade, que é a circulação, que é a preservação do interesse coletivo.”
O MAIOR CUIDA DO MENOR
“O prefeito de Porto Alegre, José Fogaça, foi o relator do novo Código de Trânsito Brasileiro. E ele tem uma expressão que norteia todo o código: o maior cuida do menor. Então, numa relação entre carro e pedestre, é o carro quem tem que ter mais cuidado. Claro que o pedestre precisa ter cuidado também, mas o carro mais que o pedestre, mais que a moto. Aí já muda na relação do automóvel com ônibus, com o caminhão. Tudo isso numa lógica de que numa colisão, quem sofre mais é o menor. A prioridade não é só o carro. O motorista é um pedestre dirigindo. E o pedestre é um motorista caminhando. Tem um pouco de prepotência no trânsito. O código nada mais é do que uma regra de civilidade.”
TRÂNSITO É CIÊNCIA
“Hoje o trânsito aqui em Porto Alegre – e isso tem acontecido na maioria das grandes cidades – é assunto número um. Pegando o exemplo do futebol, eu, na posição de diretor da EPTC, me sinto o técnico. Porque todo mundo sabe melhor a escalação do time do que o treinador. E no trânsito é assim. Na área de Justiça, na Medicina, você pode até ter as suas opiniões, mas é assunto de especialista. Agora, transportes é uma área em que todo mundo se sente à vontade para ter opinião. Então um dos desafios nossos foi mostrar que tem muita ciência por trás, tem conhecimento. Transportes é uma ciência organizada, uma área tecnológica, sofisticada. Mas isso nos países de primeiro mundo.
Aqui no Brasil ainda tem muito amador administrando e exatamente por isso que todo mundo se sente apto a dar palpite. Todo mundo sabe qual é a solução. Muita gente vem aqui na EPTC, mas ao invés de dizer qual é o problema, já dá a solução. ‘A comunidade quer uma sinaleira’. Tá, mas a sinaleira é o remédio, eu quero saber qual é a tua doença. Aí o pessoal para: ‘Ah, é porque os carros passam correndo’. Mas sinaleira não é pra carro que passa correndo. Existem outras medidas mais eficientes. Na engenharia de tráfego há uma série de remédios, que têm que ser prescritos de acordo com a doença.”
SOLUÇÔES
“O que as cidades fizeram, as européias e asiáticas, principalmente? Investiram muito em transporte público e na qualidade deste serviço, como forma alternativa de deslocamento. Investiram muito em meios não-motorizados, como bicicletas e ciclovias. E na parte de circulação se investiu em inteligência e equipamentos eletrônicos pra monitorar o trânsito e pra fazer com que se tenha um sistema de semáforos mais eficiente. Ou seja, que consiga dar uma maior vazão para os fluxos onde há maior movimento.
A Cecomm é uma tentativa que estamos tendo no sentido de aporte de tecnologia para auxiliar a gestão. A tecnologia é uma das saídas que as cidades europeias encontraram para resolver os problemas de trânsito devido a este número muito grande de veículos. Em relação à outra alternativa, que é transporte público bom, nós ainda estamos em uma realidade muito distante, pelo menos nas grandes cidades. Aqui em Porto Alegre estamos numa busca constante por melhorias, como bilhetagem eletrônica nos ônibus. Projetos que façam com que um cadeirante consiga entrar facilmente nos ônibus, inclusão. Esse somatório vai fazendo com que o transporte público seja mais atraente e consiga fazer com que parte deste pessoal que está andando de carro passe voluntariamente a andar de ônibus.”
ESTACIONAMENTO
“Políticas de estacionamento são extremamente importantes. Hoje as pessoas usam parte da via para estacionamento. Existe toda uma discussão se a via é também para estacionar ou só para circulação. Mas uma boa forma de minimizar isso é com a área azul (estacionamento rotativo pago). Assim se democratiza o acesso. O sujeito fica no máximo duas horas, sai, entra outro e ocorre a rotatividade.
Sem dúvida o parquímetro é a solução mais eficiente. É vital. Pode ter uma administração manual, mas ela é muito menos eficiente do que com os equipamentos. Aqui em Porto Alegre nós temos o parquímetro, temos os fiscais administrados por uma empresa, mas a multa só pode ser dada pelos agentes de trânsito. Uma vez vencido o cartão ele é comunicado pela empresa, aí vai lá e autua. E aí é uma multa de trânsito. Passou do limite, paga. Mexe na parte mais sensível do corpo humano, que é o bolso. Então o sistema é respeitado.
Aos poucos se começa a mexer na cultura e é um sistema que temos ampliado para mais partes da cidade. A área azul não tirou emprego, bem pelo contrário. Aqui teve uma discussão assim há nove anos, quando houve a implantação, mas logo passou ao se ver que o sistema estava funcionando muito bem, de forma muito eficiente.”
EDUCAÇÃO
“Em Porto Alegre começamos um trabalho de educação para o trânsito em que a gente vai educar os filhos. Nós chegamos à conclusão de que os filhos é que estão educando os pais ultimamente. Por exemplo, na questão ambiental foi isso que aconteceu. Eu lembro muito bem que só não matei passarinho na infância por incompetência. Não foi por falta de estímulo dos meus pais. Hoje, se você falar pra uma criança de 10 anos sobre matar passarinho, ela vai te chamar de bárbaro, de assassino. Porque mudou a cultura em relação ao ambiente. E na área do trânsito vamos ter que começar a fazer coisas parecidas. Vamos educar os filhos e eles vão dizer ‘pô, pai, parar aqui está errado’. Assim como o cinto de segurança. Eles sentam e automaticamente colocam.”
PARCERIAS PÚBLICO-PRIVADAS
“A Capital passa por um fenômeno interessante que é o número crescente de shopping centers. Hoje temos quatro grandes prontos para iniciar a construção, mais dois ou três que foram inaugurados recentemente, mais os que já havia. Então, dentro dessa lógica, cada grande empreendimento desses é um grande polo gerador de viagens. Vai necessariamente fazer com que muitas pessoas circulem por aquele lugar, gerando um transtorno ainda maior. O que temos feito aqui muito é dar pra esses empreendimentos medidas para que compensem o impacto ambiental da implantação.
Entre isso nós estamos solicitando ampliação de vias, colocação de sistemas de semáforo, câmeras para alimentar nossa central de monitoramento e também a construção de ciclovias e ciclofaixas. Hoje temos quase 500 quilômetros de ciclovias e ciclofaixas interligando os diversos pontos da cidade. Então parte dessa rede vai ser construída com recursos privados de compensações ambientais.
Hoje as parcerias com o setor privado são uma tendência mundial, no que diz respeito à infraestrutura e na parte dos transportes. É chamar o setor privado. A Prefeitura especifica o que tem que ser feito e o empreendedor aplica o recurso. Essa é uma forma de como a Prefeitura enxerga, de trazer o setor privado para também participar desse esforço.”
OBRAS
“A solução não é só obra. Na década de 70 a gente olhava muito a questão da obra, viaduto, túnel. Hoje passou essa fase. Obviamente que se precisa de algumas obras, mas elas têm que ser muito relevantes. O mais importante é gestão, é capacidade de administrar uma rede de circulação, que normalmente é complexa, mas que fundamentalmente tem uma característica: ela só está na sua plenitude durante duas horas ou três horas do dia. No resto ela fica ociosa.”

| Quem é |
| Luiz Afonso Senna é PhD em Transportes pela University of Leeds, na Inglaterra, Mestre em Transportes pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, engenheiro civil pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e formado em Educação Executiva (Infrastructure in a Market Economy) na Kennedy School of Government, Universidade de Harvard, Estados Unidos. É consultor em Planejamento e Economia dos Transportes, Pesquisador Associado do Centre for Brazilian Studies, ambos da Universidade de Oxford, na Inglaterra, e secretário municipal de Mobilidade Urbana de Porto Alegre, onde responde pela diretoria da Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC). |
Por: Jansle Appel Junior
25 e 26 de Abril de 2009
Gazeta do Sul - Santa Cruz do Sul,RS,Brazil